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Para entender a pandemia: trauma e negacionismo

O livro O Trauma na Pandemia do Coronavírus, de Joel Birman (Civilização Brasileira, 2020), contribui de maneira decisiva para refletir sobre a condição humana e a modernidade neste primeiro ano da terceira década do século XXI. A partir do registro da pandemia de COVID-19, podemos ter um quadro que marca o evento – a dimensão de trauma e de catástrofe que inaugura e recoloca o tema da morte e da finitude humana na relação com o recorte específico do impacto do vírus.

A utilização neste trabalho de leitura interdisciplinar, com uma abordagem marcada pelo uso da noção de complexidade, permite ao psicanalista, professor, pensador e escritor Joel Birman construir um texto muito bem recortado. Nas páginas desta genealogia da pandemia destaca-se a importância do embate entre a razão instrumental e a ciência, com base no resgate do tripé dimensão teórico-crítica, metodologia experimental e consistência da observação empírica, por meio de uma leitura em vários planos, disciplinas e registros numa armação muito precisa.

A busca das referências paradigmáticas, no campo do conhecimento, e genealógica, no terreno da biopolítica, permite que possamos usar os recursos dessas leituras para situar a relação dos elos saber-poder implicados na leitura da pandemia numa abordagem holística. No trabalho, o autor considera os contrastes culturais que definem disparidades e dificuldades derivadas dos modos de reprodução social e das formas de interação humana presentes no Ocidente, em especial na sua semiperiferia brasileira.

O uso do referencial da estratégia teológico-política da “lepra”, em contraste com o controle social público, inscreve a transição para a formação de um paradigma de distanciamento e quarentena na longa duração histórica, que prevaleceu até a passagem e consolidação do paradigma da “peste”. Ao longo da modernidade, o sanitarismo e a epidemiologia acompanham as tecnologias de gestão da população nos territórios por meio dos registros biológico, médico e jurídico. Essa dimensão, com suas singularidades, resultou na aplicação de processos que incluem toda a população, a cidade e o território como sujeitos e objetos da ciência. O paradigma científico entra em contradição com a ideia religiosa, que no passado permitiu excluir, matar (“lepra”) – em contraposição a proteger e curar –, como no que pode derivar dos modos de isolamento e controle igualitário da peste.

O paradoxal é que a crise da modernidade se articulou no discurso negacionista a partir do velho padrão preconceituoso e mórbido da “lepra”. O discurso político que negligencia as tarefas da vigilância, proteção e imunização horizontais vem acompanhado das mais diversas cargas e inclinações ligadas ao individualismo, ao fetichismo e ao racismo.

As políticas neoliberais de destruição dos direitos sociais se fundem às tecnologias de poder que apelam para o complemento do uso da força para realizar as cruzadas morais com mais intensidade. A retórica religiosa de tipo neopentecostal se associa sempre às tendências de fascismo social e ao modo de comando que resultaram na ideia de soluções de distanciamento vertical ao gosto de um darwinismo social atualizado.

Nas imagens de contraste e luta entre valores opondo – de um lado, o dinheiro e o mercado (a bolsa); do outro, o bem-estar, a vida –, Joel Birman tece fios entre a economia e o tipo de ação orientada pela negação das evidências. Ao optar pela bolsa e não pela vida, ou seja, ao priorizar a dimensão da acumulação capitalista, as forças negacionistas encabeçadas por governantes como Trump e Bolsonaro nos lançaram numa rota catastrófica. O governo brasileiro vem acentuando os efeitos subjetivos e objetivos das consequências mórbidas dessa necropolítica. A política de Bolsonaro e seus ministros é deixar contaminar, tentando naturalizar sua bestialidade, como suposto modo de enfrentar e neutralizar o vírus.

A crueldade dessa opção é racista, como podemos ver na indiferença quanto à morte dos considerados descartáveis no rebanho. Os protocolos e modos de combater as incertezas produziram um quadro com fortes contrastes e embates muito bem descritos. O exame do cenário geopolítico é mobilizado, colocando em cena a Organização Mundial da Saúde, as estratégias, enfrentamentos, competição e zigue-zagues em matéria de cooperação. O caso brasileiro é amplamente descrito em função da posição política que nos torna párias e objeto de escárnio no sistema internacional.

O fio condutor necropolítico e o extremismo banalizador da violência foram acentuados pelo efeito do discurso negacionista. O que resultou na exposição da população ao vírus, explorando uma falsa noção de liberdade mesclada à noção de pecado, foi a condução à contaminação e à morte numa guerra ideológica que afirma a superioridade masculina e a decisão delirante do presidente que alçou ao poder por meio de um golpe institucional e da realização de inúmeros atentados contra a Constituição Federal. As ações e estímulos para as hordas fascistas e a formação de milícias se acentuaram com o ataque às instituições democráticas e alimentaram um processo de fragmentação, resultando na crise de autoridade com a consequente catástrofe sanitária.

Esse processo bem descrito por Joel Birman leva ao paroxismo o efeito da geopolítica do delírio, ao apresentar as opções que vão sendo tomadas pelos governos nas várias latitudes em consonância com as descobertas e conclusões de pesquisas e de experiências de ensaio e erro, como as que partem de base empírica a partir das formas de tratamento. O quadro de trauma se acentua com a ampliação da vida nua como parte do resultado da guerra interna travada, em especial no Brasil, como uma cruzada moral de cunho racista, classista e sexista.

A cena brasileira aparece no quadro preciso da análise de conjuntura ao mostrar a gravidade da facilitação para destruir o meio ambiente, com o apoio manifesto para matar e segregar negros, pobres, indígenas, mulheres e LGBTIs; para impor uma ordem ditatorial que se contraponha a toda a diversidade das formas de autonomia dos grupos sociais. Tudo isso acentuou a orientação do biopoder na forma de uma desmontagem dos dispositivos de proteção social, sanitária e ambiental, por meio das mensagens absurdas de desorganização das medidas de proteção, isolamento e higiene. O efeito foi dividir o entendimento sobre a pandemia, afetando os comportamentos coletivos, gerando uma enorme confusão ao termos em cena duas orientações: uma, em aspectos responsáveis, tentando se ajustar ao conjunto de práticas e recomendações da OMS; outra gerando aglomeração, contaminação e truculência, com cenas graves de efeito genocida quando medida pelas vidas perdidas por conta da negligência, omissão ou por decisões sem base científica, como o uso da cloroquina.

O exame criterioso dos distintos desafios que impactam a humanidade, em O trauma na pandemia, apresenta um registro de informações e achados para desvendar o vírus desde as questões biológicas, passando pelos caminhos da pesquisa e dos modos de tratamento clínico. As referências e fontes são excelentes e fundamentais para elaborar o quadro de análise.

Joel Birman produziu um livro bem recortado que mostra os efeitos sobre o corpo e a psique em um trabalho que fala dos modos de tratamento, dos estudos clínicos e dos efeitos devastadores da catástrofe, assim como das mais diversas formas de sofrimento e desamparo que afetam a condição humana. Os impactos catastróficos se manifestam sobre uma estrutura marcada pela noção de trauma, que se escreve, desde a abordagem do fluxo e da economia pulsional, a partir da leitura psicanalítica da forma como se organiza o inconsciente.

As formas pelas quais nos constituímos enquanto subjetividades desejantes têm por base a relação com o problema da conservação da vida, da pulsão do prazer na relação decisiva com “a castração”, com a medida e processamento das defesas que nos permitam elaborar coordenadas adequadas para lidar com os eventos. O mal-estar na modernidade pandêmica recoloca o registro da morte na linguagem do cotidiano do mundo vivido, com os laços que são afetados por um conjunto novo de fenômenos e de repetições traumáticas. O trauma da pandemia atravessa a produção do mal-estar na pós-modernidade, que se apresenta de maneira precisa nas páginas deste livro, onde nos vemos diante do trauma e da catástrofe com o seu efeito de angústia real.

Joel Birman mostra a singularidade a partir da qual a clínica psicanalítica se realiza em meio a sua prática virtual. O processo que articula o trauma no registro da pandemia coloca em cena, com muita força, a relação entre psicanálise, na relação com o conhecimento, e análise da complexidade do trauma da pandemia, no registro das interações afetivas desde as dobras e bordas que conectam esse saber sobre o ser humano aos saberes da medicina, da saúde mental, da política sanitária e das discursividades sobre a relação homem/natureza e corpo/mente.

O autor, como já vem apontando em trabalhos recentes, indica o grau de crueldade a fúria que emerge, desde os pequenos egos (aqui as lideranças da horda) no terreno da passagem ao ato violento pela multidão. O tema da barbárie se liga a um tipo de efeito devastador promovido no reforço da opção pela bolsa, pela via da globalização na chave neoliberalismo. A retomada da hegemonia no enfrentamento aos regimes de exceção exige uma leitura precisa dos discursos em disputa, por força dos impactos devastadores da ação dos governos e grupos que exploram os efeitos da “dupla mensagem”, proveniente do choque de orientações distintas sobre como agir diante da pandemia.

O gozo perverso do negacionista alimenta a barbárie e intensifica a resistência ao registro do ódio crítico da ciência e da constituição de práticas republicanas. O processo revela a urgência de uma retomada de políticas sociais capazes de lidar com o colapso econômico e a desigualdade. Na esteira do novo populismo de extrema-direita e da crise da globalização parecem emergir resistências que já fazem parte do conjunto de medidas emergenciais e sanitárias ligadas à renda emergencial e à saúde coletiva.

O efeito de confusão do negacionismo e da dupla mensagem sobre a dimensão de desamparo desestrutura os laços sociais, destrói a frágil esfera pública, golpeando o corpo coletivo diante do registro do real da morte como um devir da humanidade lançada ao sabor do contágio. Por fim, o colapso dos sistemas de proteção e seu efeito no registro da saúde inclui todas as trágicas consequências de sofrimento, que geram desamparo, melancolia, dor e angústia. O luto é um dos ritos que fica afetado, além da ruptura e distanciamento do contato com os corpos e entre os sujeitos. Ao lado das imposições necessárias, temos um efeito devastador quando a crueldade acentua a tragédia do quadro de mortos sem sepultura. O conhecimento entra como um tema decisivo das respostas imunológicas e sanitárias que estabelecerão modos de se relacionar diante dos novos registros do agir humano em sociedade.

*Pedro Cláudio Cunca Bocayuva, autor desta resenha, é professor do Programa de Pós-Graduação em Políticas Públicas em Direitos Humanos (PPDH), vinculado ao Núcleo de Estudos de Políticas Públicas em Direitos Humanos (Nepp-DH) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ).

 

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