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"Ser professor é uma opção política"

Projeto integrante das comemorações dos 50 anos da FE-UFRJ pretende provocar a reflexão sobre a formação docente

“R. sofreu horrores como servente em escola de branco na zona sul. Hoje estuda Educação Antirracista na FE e aprendeu a diferenciar racismo de bullying”. Quem transita pelo campus universitário da Praia Vermelha já deve ter se deparado com este e outros relatos expostos em faixas estendidas em diversos pontos (foto ao lado). O projeto é mais um entre outros tantos que compõem a programação das comemorações dos 50 anos da Faculdade de Educação (FE) e é organizado pelos professores Adriana Fresquet, Ana Chaves, Wilson Cardoso Júnior, da FE-UFRJ, e Greice Cohn, do Colégio Pedro II.

Cardoso Júnior, professor da FE-UFRJ desde 2011, explica que o objetivo foi contar histórias de estudantes e ex-estudantes da Faculdade de Educação e propor uma reflexão acerca as motivações e circunstâncias que levaram os novos professores até o Magistério, seus planos para a carreira, identidades e outras características deste docente em formação. “A FE sofre de certa invisibilidade dentro do campus da Praia Vermelha. E, de forma geral, nós sabemos que a formação de professores sofre dessa mesma invisibilidade. Isso faz com que os estudantes de Pedagogia tenham uma baixa auto estima”, argumenta o professor graduado em Educação Artística pela Uerj, mestre e doutor em Educação pela PUC-Rio. “(Há sete anos) venho recolhendo histórias de alunos, procurando saber por que eles entraram na universidade, qual a pretensão deles ao sair daqui, os planos, ideais, origem etc. Então, uma das vertentes das comemorações (dos 50 anos) era jogar luz sobre esses alunos, mostrá-los de carne e osso, fazer uma espécie de autorretratos”, afirma um dos organizadores do projeto, que preserva as identidades de todas as personagens retratadas. 

A ideia foi inspirada na obra “Não-ideias”, da artista mineira Marta Neves, exposta na 31ª Bienal de São Paulo, em 2014. A artista contou – também por meio de faixas estendidas em espaços públicos - histórias de vida de personagens anônimos que não necessariamente resultavam em um final feliz. “C. nunca teve ideia de como abordar sexualmente seu ex-professor de Economia e atual prefeito. E amarga até hoje sua vida sexual solitário”, diz uma das faixas confeccionadas por Marta Neves (foto ao lado). “Todas essas histórias têm uma riqueza muito grande nessas não conquistas. Partimos dessa ideia, mas adaptando para os nossos objetivos e fomos colocando questões instigantes também”, afirma o professor. 

Foram abordadas questões identitárias, racismo, gênero e inclusão social. “Queríamos que o público ficasse pensando temas novos sobre a Educação, que não são os mais comuns, mas que estão começando a surgir agora, como exemplo, a Educação Diferenciada, Pedagogia Decolonial e Educação Ambiental, em que se usa o termo Racismo Ambiental”, cita Cardoso. “Nossa intenção foi colocar essas discussões para a comunidade universitária e mostrar um pouco os questionamentos e o universo conceitual que a Educação tem trabalhado. Era uma forma de mostrar para outras unidades e estudantes quem somos nós, em que ponto nós estamos, pensando as coisas em termos de Educação”, destaca o organizador, mencionando também outros temas apresentados, como a democratização da Educação e a defesa da Educação pública, laica, democrática e de qualidade.

O projeto procura responder a questões como: de que maneira a trajetória de vida do professor, sua identidade, formação social, familiar e política podem contribuir para transformar socialmente a realidade do aluno? "Ser professor sempre foi um ‘bico’. O 'cara' detinha um conhecimento sobre determinado ofício ou saber e se ele não fizer algum uso disso com algo em que possa ganhar dinheiro, ele vai dar aula. Mas nós entendemos que o ser docente é uma profissão. Há todo um aparato de conhecimentos para a pessoa se transformar em um professor”, explica Cardoso. “Os professores têm constituições identitárias diversas e atuam na Educação com propósitos muito diferentes. Não quer dizer que um seja melhor que o outro, mas nos interessam mais aqueles que têm o propósito de uma educação emancipadora, libertadora, relacionada ao fato de que ser professor hoje é basicamente uma opção política”, enfatiza o realizador do projeto, que pretende aferir a reação do público a essas narrativas. “Eu adoraria que isso animasse outros grupos a fazer coisas parecidas. Que eles pudessem contar suas narrativas e espalhá-las pelo campus. São narrativas pessoais, mas que acabam se transformando em um bem comum. E é interessante também porque quando as pessoas contam essas histórias, muitas vezes, não têm plena consciência do quanto isso importa na decisão de se tornarem professoras”, diz o professor. 

Outras iniciativas, também relacionadas às comemorações dos 50 anos da FE-UFRJ, já estão em andamento, como a instalação que denuncia o sucateamento da Universidade pública: uma pilha de cadeiras em mau estado de conservação amontoadas umas sobre as outras em frente ao Palácio Universitário (foto ao lado). Além da exposição de fotografias no Espaço Memória, Arte e Sociedade Jessie Jane Vieira de Souza, localizado no segundo andar do prédio da Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), Cardoso cita o projeto de exposição de retratos de estudantes da FE, colados nas paredes externas do aulário. “É um ‘lambe lambe chic’", define. "Vamos mostrar quem são os alunos da Pedagogia”, comenta o professor, revelando também a intenção de produzir uma escultura em que os frequentadores do campus reflitam, literalmente, sobre o sentido da educação pública. “A ideia é fazer uma instalação, em suporte de madeira, com letras formando a expressão “Escola Pública”, revestida de espelhos quebrados. As pessoas veriam o seu reflexo naquela obra, que seria também o reflexo da nossa sociedade”, resume.

As demais iniciativas em comemoração aos 50 anos da FE-UFRJ podem ser conferidas na página oficial da unidade.

 

Reportagem e fotos: Pedro Barreto/SeCom/CFCH

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