CFCH - Centro de Filosofia e Ciências Humanas

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Em busca do consenso

Denise Pires de Carvalho e Carlos Frederico Leão Rocha visitam o CFCH, apresentam e ouvem propostas para a gestão

Faltavam poucos minutos para as 15 horas quando a professora Denise Pires de Carvalho entrou na sala do Conselho de Coordenação do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH), na última segunda-feira, dia 3 de junho. O decreto de nomeação da reitora da UFRJ no próximo quadriênio havia sido publicado naquele mesmo dia no Diário Oficial da União. Denise chegou acompanhada do professor Carlos Frederico Leão Rocha, o Fred, vice-reitor eleito. Vinte e cinco representantes com assento no Centro, entre diretores de unidade, servidores técnico-administrativos e demais presentes, ouviram com atenção as palavras dos convidados.

Integração CAp-EEI

O ponto de pauta da 853ª sessão ordinária em que Denise Pires falaria seria o sétimo, o que não impediu que a professora acompanhasse quase a integralidade da reunião antes de iniciar a fala. Assim, ela pôde assistir à manifestação das professoras Cristina Miranda, diretora do Colégio de Aplicação (CAp), e Aline Crispim, diretora da Escola de Educação Infantil (EEI), sobre o ponto que tratava da integração das unidades de Educação Básica em uma só estrutura. “Hoje é um dia muito importante, histórico para nós. A Educação Básica não é um tema tão conhecido na UFRJ, mas nos é tão caro. Antes, sequer nos conhecíamos. Hoje, já avançamos, mas precisamos avançar ainda mais nessa integração”, disse Cristina Miranda. “Eu parabenizo o Centro pela criação do Complexo de Formação de Professores, tão importante para a nossa instituição e para a nossa sociedade, e pela integração entre o CAp e a Escola de Educação Infantil”, disse Denise. “O Complexo irá impactar na valorização do professor. A diferença entre as escolas municipais, estaduais e as universidades federais está na valorização do professor. Neste aspecto, vocês do CFCH têm um papel fundamental a cumprir. E nós apoiaremos ao máximo possível esta iniciativa”, prometeu a reitora nomeada.

Conciliação

Denise e Fred buscavam palavras de conciliação e de respeito ao processo democrático. “Eu vim agradecer pela mobilização, que nos ajuda a festejar e fortalecer a democracia na nossa instituição. É muito importante que nós nos mobilizemos mais, não só para a eleição dos reitores, mas em todos os demais pleitos democráticos que aqui houver. Pretendemos fortalecer ainda mais o papel dos colegiados em todos os centros e unidades”, destacou a reitora nomeada. “Entendemos que esta universidade tem que seguir unida. Temos que abrir diálogos em várias frentes e esperamos ter a colaboração de todos nesses temas. A transição tem sido ótima. O professor Leher tem sido fantástico neste processo, as pró-reitorias têm atuado da maneira esperada. Agora é o momento de trabalhar para apresentar propostas consolidadas para a universidade”, afirmou Fred Rocha.

Democracia

Denise Pires lembrou a nomeação do professor José Henrique Vilhena de Paiva, em 1998, pelo ministro da Educação do governo Fernando Henrique Cardoso, Paulo Renato de Souza, sem que houvesse sido eleito pelo Colégio Eleitoral da UFRJ. “Iniciamos o processo eleitoral em fevereiro deste ano. Havia muita insegurança na época. Já aconteceu em nosso passado o fato de não ter sido escolhido o primeiro colocado da lista tríplice. É sempre bom recordar os momentos de crise da instituição. Por isso precisamos trabalhar para impedir qualquer tipo de intervenção na nossa democracia interna”, pontuou a reitora nomeada. “É uma surpresa ter sido nomeada um mês antes do término do mandato do atual reitor. Em geral, isso acontece mais próximo do término do mandato. Mas agora eu me sinto muito mais à vontade. Eu espero poder falar por todos vocês. Se não for o caso, estou aberta ao diálogo. Estou aqui para deixar uma universidade melhor do que a que recebemos, do mesmo modo que o professor Leher está deixando uma universidade melhor do que a recebeu no início do seu mandato”, afirmou. “Precisamos estar abertos a críticas e corrigir rumos. Não há nenhuma pequena divergência interna que faça com que externamente estejamos divididos. Por este motivo, precisamos trabalhar com muita tranquilidade, buscando o consenso. É saudável que não haja unanimidade. Assim, podemos mudar os rumos através do diálogo respeitoso”, completou Denise.

Cortes no orçamento

O tema do contingenciamento de recursos anunciado pelo Ministério da Educação (MEC) também foi pauta da fala da reitora nomeada. “O nosso orçamento é deficitário no momento. Qualquer tipo de corte ou contingenciamento, seja lá o nome escolhido, feito de forma linear para todas as universidades não é baseado em uma política e deve ser evitado. As instituições são muito diferentes. Elas têm histórias, trajetórias e condições orçamentárias muito diferentes”, comentou Denise, para, em seguida, detalhar algumas especificidades da UFRJ. “Precisamos lutar para que os nossos prédios tombados sejam levados em consideração. O fato de sermos a maior e melhor federal do país tem os seus motivos. Por trás de toda essa produção existem estruturas que funcionam 24 horas e não são apenas os nossos oito hospitais. Há laboratórios de pesquisa com biotérios, aonde vivem animais e que por isso a energia não pode ser desligada nos finais de semana. Por esses e outros motivos não é possível que tenhamos o mesmo tratamento de outras instituições”, enumerou. “Vamos estar em diálogo permanente com o MEC, com a Capes e outras instituições para manter a nossa universidade funcionando. O motivo de fazermos a cerimônia de posse numa segunda-feira (dia 8 de julho) é para que a bancada de parlamentares cariocas possa estar presente”, completou a reitora nomeada.

Primeira reitora

Tanto Denise quanto Fred deram ênfase à cobertura da imprensa sobre a eleição na UFRJ. A repercussão teria se dado pelo fato de Denise Pires ser a primeira reitora, ou por se tratar da UFRJ, a maior universidade do Brasil? “Tem sido muito bem recebido na imprensa o fato de a Denise ser a primeira reitora. Isso é importante por si só. Obviamente, nós utilizamos isso como mote eleitoral. Eu me orgulho de ter participado deste processo junto com a Denise. Nós temos que aproveitar este momento para trazer coisas para a universidade”, declarou Fred Rocha, que fez questão de destacar que ainda não está nomeado oficialmente. “O Fred diz que eu estou muito na mídia porque sou a primeira reitora mulher. Acho que isso tem um significado histórico e até gosto de falar sobre isso. É incrível que a gente tenha levando quase cem anos para isso acontecer. No Instituto de Biofísica, eu fui a primeira diretora em 2010”, enfatizou. “Mas eu acho que essa exposição na mídia é muito mais porque nós somos a UFRJ. Eu não sou a primeira reitora do país. E nós não vimos a primeira reitora do país ter esse destaque na mídia. Então eu acredito que é sim porque nós somos UFRJ”, analisou Denise. 

Cobrança de mensalidades

A reitora nomeada se posicionou sobre o tema cobrança de mensalidades nas universidades públicas. “Lógico que eu não posso ser a favor de algo que não resolve a questão financeira e do qual outros países voltaram atrás, como, por exemplo, a Alemanha. Vamos parar de retroceder. Se nós temos uma estrutura que está funcionando e está entre as melhores do Brasil e da América Latina, precisamos elevá-la a uma das melhores do mundo. E não é cobrando mensalidades que faremos isso”, assegurou. 

Evasão

Denise também falou sobre a questão da evasão discente nos cursos de graduação. De acordo com o mais recente Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI), publicado em junho de 2018, depois de chegar a 19% em 2011, a taxa de evasão dos cursos presenciais se manteve em 18% entre 2012 e 2014, caindo para 15% em 2015 e 2016, e registrando um ligeiro aumento para 17% em 2017 (ver gráfico abaixo).  “Nós estamos preocupados com as taxas de evasão na nossa universidade. Isso já acontece desde a década de 1990. Não é para tranquilizar a gente, já que não avançamos de lá para cá”, mencionou. “Alguma política institucional precisa acontecer para melhorar o número de concluintes. Precisamos implantar programas que resolvam esta questão, através de apoio psicopedagógico, como dar maior mobilidade aos estudantes entre os cursos. O meu sonho é, daqui a quatro anos, a UFRJ ser um exemplo para outras universidades no que diz respeito à redução da evasão no ensino público. Eu acredito que nós temos todos os especialistas aqui na universidade para fazer isso”, disse a reitora nomeada.

 

 

Inovação

Fred Rocha falou sobre algumas propostas da futura gestão. Entre elas, a criação de uma Política de Inovação para a UFRJ. “Nós queremos votar ainda este ano, até porque necessitamos disso para manter o Parque Tecnológico. Para que ele exista, é preciso que seja subordinado a uma Política de Inovação da universidade. Queremos que ela seja feita ainda nos primeiros seis meses”, prometeu o vice-reitor eleito. “Inovação não é só registrar patente. Também é inovação social, o que vocês fazem muito aqui no CFCH”, completou Denise. 

Novo PDI

A reitora nomeada prometeu mudanças no Complexo Hospitalar: “Ele será completamente reformulado, talvez vá até mudar de nome”, disse. Denise também citou a Comissão Própria de Avaliação, constituída a partir da Lei 10.861/2004 e que tem como atribuições conduzir os processos de avaliação internos da instituição, bem como de sistematizar e prestar as informações solicitadas pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep). “Vamos precisar de membros que sejam professores avaliadores credenciados pelo Inep, pessoas que atuam na avaliação de cursos fora da universidade. Nós temos uma série de professores aqui na universidade que já fazem isso”, afirmou Denise, que também pretende promover o debate sobre um novo PDI. “Aquele apresentado em 2018 era muito preliminar. Nós pretendemos que este documento seja a expressão da UFRJ, que tenha metas e que seja revisto a cada cinco anos. Então, vamos tentar um PDI que seja mais facilmente renovável para que não tenhamos que parar a cada cinco anos e começar tudo de novo”, disse a reitora em referência ao prazo determinado pelo MEC para a atualização dos PDIs nas universidades federais.  

Invest UFRJ

O vice-reitor eleito abordou a construção do prédio para onde serão transferias as futuras instalações da Faculdade de Educação (FE), Colégio de Aplicação (CAp) e Escola de Educação Infantil (EEI). A edificação começou a ser construída em 2011, ao lado da Faculdade de Letras, na Cidade Universitária, após decisão das unidades por meio do Plano Diretor UFRJ 2020. As obras, contudo, foram paralisadas pouco tempo depois, devido a problemas estruturais. “Nós entendemos que esta deva estar entre as prioridades do projeto do BNDES”, afirmou Denise, em referência ao acordo de financiamento firmado pela administração do professor Roberto Leher. “Nós estamos tentando rebatizar o projeto de ‘Invest UFRJ’. As nossas prioridades para ele são: assistência estudantil, obras inacabadas (na qual entraria prédio da FE-CAp-EEI) e segurança. Eu acho que essas três prioridades são um consenso entre todos nós”, completou Fred Rocha. “O RU (restaurante universitário) do campus da Praia Vermelha também está previsto. Mas eu acho que é possível fazermos, mesmo que sem os recursos provenientes do projeto”, afirmou, confiante, o vice-reitor eleito. 

Extensão

A professora Ivana Bentes, diretora da Escola de Comunicação (ECO), falou sobre iniciativas de extensão universitária e do uso do campus da Praia Vermelha para o público externo. “Precisamos pensar em projetos compartilhados. Estamos num espaço privilegiado da zona sul carioca. Podemos abrir aos sábados e domingos e oferecer uma estrutura para toda a cidade. E, às vezes, é preciso muito pouco para isso”, sugeriu.  “Temos que acabar com a sisudez do IE (Instituto de Economia) e usar o Teatro de Arena e oferecê-lo para toda a sociedade”, acrescentou Fred. 

Acessibilidade

A representante dos servidores técnico-administrativos no Conselho do CFCH, Jeane Alves da Silva, da FE, indagou acerca da acessibilidade na UFRJ. Portadora de deficiência visual, Jeane quis saber quais as propostas da reitora nomeada para aprimorar o acesso a portadores de deficiência. “A acessibilidade vai muito além da questão da deficiência. Ela deveria ser uma preocupação de todos: técnicos, professores e estudantes”, respondeu Denise. “A Dirac (Diretoria de Acessibilidade) foi criada, mas ainda não está com a sua estrutura completa. Nós queremos fortalecê-la e manter o Fórum Permanente de Acessibilidade. Além disso, queremos incluir pessoas que atuem com política de acessibilidade. É dramática, por exemplo, a situação do Palácio, em termos de acessibilidade. A questão dos intérpretes de Libras precisa ser resolvida com muita rapidez”, afirmou a reitora nomeada, quanto à escassez de professores alfabetizados em Libras, em comparação ao grande número de estudantes deficientes auditivos. “Há no NCE (Instituto Tércio Pacitti de Aplicações e Pesquisas Computacionais) grupos que trabalham de maneira muito séria e comprometida com a questão da acessibilidade. É muito importante que a gente fortaleça e realize da melhor forma possível o quanto antes. Nós temos estruturas na UFRJ que não são acessíveis para cadeirantes. Isso é inaceitável. Estamos muito atentos para essa questão”, completou Denise. 

Entrevista ao SeCom/CFCH

O decano do CFCH, professor Marcelo Macedo Corrêa e Castro, agradeceu a presença da reitora nomeada e do vice-reitor eleito, enfatizando a importância da visita, e, em seguida, deu por encerrada a sessão. Ao deixar a sala do Conselho, a reitora respondeu a perguntas da equipe do Setor de Comunicação (SeCom) do CFCH:

SeCom/CFCH: Qual a importância da visita ao CFCH, no contexto do anúncio de cortes no orçamento das universidades públicas, quando, historicamente, as unidades ligadas às Ciências Humanas e Sociais recebem menos recursos?

Denise Pires de Carvalho: O Ministério (da Educação) comentou que a área das Ciências Humanas e Sociais seria mais afetada. Mas, internamente, nós temos autonomia. Os cortes afetam toda a universidade linearmente. E isso é dramático, porque nós precisamos pagar a conta de energia, as empresas terceirizadas, entre outras despesas. Então, (esses cortes) vão afetar tanto o CFCH, como outros centros. Nós, definitivamente não faremos cortes em uma área e não na outra. Como eu já falei em outros momentos, não há engenheiros bem formados, não há área nenhuma bem formada sem que haja Ciências Humanas e Sociais atuando para que a sociedade melhore. Então, eu posso garantir que dentro da UFRJ não haverá cortes em áreas específicas. Muito pelo contrário. Num momento em que a Educação brasileira precisa melhorar, nós precisamos fortalecer as Humanidades, que são tão importantes para o Ensino Básico deste país. 

SeCom/CFCH: A senhora falou sobre a preocupação com o índice de evasão dos estudantes. Em relação aos servidores técnico-administrativos, também é grande o número de trabalhadores dessa categoria que deixam a universidade, ainda nos primeiros anos, buscando melhores ofertas salariais e condições de trabalho. A senhora se preocupa também em investir em ações para essa categoria?

Denise Pires de Carvalho: Isso estava no nosso programa de campanha. É muito ruim que haja o chamado desvio de função: uma pessoa que faz concurso para uma área e acaba trabalhando em outra, que não era exatamente o que essa pessoa estava esperando. O que nós pretendemos, num primeiro momento, é fazer um dimensionamento de pessoal e permitir que haja mobilidade desses profissionais. Um exemplo disso são os técnicos em assuntos educacionais (TAEs), que são pedagogos por formação e não atuam na área de Pedagogia. Se nós conseguirmos recrutar essas pessoas para trabalhar em núcleos de apoio pedagógicos aos nossos estudantes, faremos duas coisas: que esses funcionários atuem na sua área, mais satisfeitos e, portanto, evadam menos, e que os estudantes também evadam menos por terem um apoio pedagógico. Nós temos na universidade essa riqueza de profissionais que são, muitas vezes, muito pouco utilizados sob o ponto de vista daquilo que eles querem exercer. Precisamos ter mais esse olhar, quase que de uma entrevista pessoal, de perguntar ao funcionário a sua expectativa sobre a universidade. A Pró-Reitoria de Pessoal (PR-4) tem que identificar vocações e atuar nesse sentido. Para o futuro, nós pretendemos instituir a comissão de vagas de técnico-administrativos e descentralizando os concursos, de forma que os técnicos que venham trabalhar no CFCH já façam o concurso para cá, que é um Centro completamente diferente do CCS (Centro de Ciências da Saúde), por exemplo. Hoje em dia, o curso é centralizado e as pessoas são alocadas nos centros conforme as demandas dos centros. As pessoas são diferentes umas das outras e é assim que nós pretendemos lidar nos próximos quatro anos. 

SeCom/CFCH: A senhora falou em várias ocasiões sobre a importância da visibilidade da UFRJ na mídia. Como a senhora analisa o papel da Comunicação Institucional da UFRJ?

Denise Pires de Carvalho: A CoordCom (Coordenadoria de Comunicação) vai ser reestruturada e fortalecida. No momento, há profissionais excelentes que podem fazer mais do que eles fazem. E nós daremos toda a liberdade de trabalho. Todos na universidade merecem liberdade. Mas o pessoal da comunicação precisa ter mais liberdade para interagir com a imprensa e com a sociedade e divulgar na mídia tudo o que nós fazemos de bom aqui dentro. Vamos parar de mostrar só goteiras, que existem em todos os lugares, inclusive em hospitais privados de alto padrão. Quando isso acontece na UFRJ, aparece em todos os jornais, ao invés de mostrar o que Hospital Universitário (Clementino Fraga Filho) é o único a fazer transplante de cóclea (indicado para pessoas com perda auditiva severa) na cidade do Rio de Janeiro. É isso que nós temos que mostrar para a sociedade. No ato da minha nomeação como reitora, a página da UFRJ foi a primeira a publicar a notícia, antes mesmo da grande imprensa. Foi um furo da CoordCom e eu espero entregar mais furos para o nosso Jornalismo.

 

Reportagem: Pedro Barreto/SeCom/CFCH-UFRJ

Fotos: Cícero Rabello/CPM-ECO-UFRJ

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