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A noite em que Conceição Evaristo reescreveu a História na UFRJ

Premiada escritora é ovacionada pelo público que lotou o Salão Pedro Calmon, no campus da Praia Vermelha

Contar a história que a História não conta. Essa foi a proposta de Conceição Evaristo, na palestra que encerrou o primeiro dia do “XIII Encontro Regional Sudeste de História Oral - Narrativas de (re)existências: corpo-oralidades, antirracismo e educação”, na última quarta-feira, dia 25. 

Antes da conferência, a escritora acompanhou atentamente uma apresentação de slam do grupo "Poetas Vivos" (foto abaixo), composto pelos artistas Valentine, Da Costa e Maui, no átrio do Palácio Universitário – mesmo local que um dia sediou o Hospício Pedro II, que teve o escritor Lima Barreto como interno. Com letras combativas e críticas sociais e políticas, o grupo despertou a atenção dos presentes:

Quem deveria nos defender nos mata

Usando uma farda

Em nome da gentil pátria amada

...

Dizem que no Brasil ninguém passa fome não

Mas ontem mesmo

Eu vi uma pessoa revirando lixo

Para conseguir achar uma só refeição

...

Somos os Poetas Vivos

Militantes do povo

Nossa aposta é a revolução

Ele não.

Graduada em Letras pela UFRJ, mestra em Letras pela PUC-Rio, doutora em Letras pela UFF e premiada nacional e internacionalmente, Conceição Evaristo foi demoradamente aplaudida pelo público que lotou o Auditório Pedro Calmon, no campus universitário da Praia Vermelha. “É muito gratificante voltar a esta universidade, onde me graduei, e ver este auditório repleto de mulheres e homens negros. Eu gostaria de iniciar a minha fala, destacando que toda a minha produção intelectual é inerente à condição de mulher negra na sociedade brasileira”, pontuou. 

A escritora abordou a questão da heroicidade, da resistência e da luta do povo negro, ao longo da História do Brasil. “O (historiador) Joel Rufino (dos Santos) nos lembra que a Inconfidência Mineira não durou nem cinco anos, mas os livros de História têm mais informações sobre ela do que sobre o Quilombo de Palmares, que durou quase cem”, destacou. “A nossa História narra a trajetória de Palmares como uma experiência derrotada, mas como pode ter sido se ela resistiu por quase um século?”, questionou a escritora. 

Heroicidade de um povo

Conceição Evaristo comparou a luta dos negros em condição de escravidão ao momento atual, em que jovens negros em favelas são abatidos a tiros disparados por atiradores de elite do alto de prédios e de helicópteros. “A fuga para os quilombos não dava nenhuma certeza de liberdade. Pelo contrário. Aqueles que eram capturados sofriam os piores castigos e torturas. Só o desejo e a esperança por liberdade é que os motivava. O mesmo acontece hoje. O nosso grau de vulnerabilidade é ainda maior nos tempos atuais. O que não nos deixa esmorecer é a certeza de que estamos indo em busca de nossa liberdade, tal como Zumbi dos Palmares”, enfatizou. 

“A heroicidade de um povo não se resume a um só sujeito. Assim como a desgraça de um povo também não se resume a um único indivíduo”, completou.

  

A escritora falou sobre a representação de homens e mulheres negros na Literatura Brasileira e como esta representação impacta na própria condição da população negra na história do país. “Cassimiro (Lopes - personagem do romance “São Bernardo”, de Graciliano Ramos) não tinha voz e seu intelecto é comparado ao de um animal. Rita Baiana, Bertoleza (personagens do livro “O cortiço”, de Aluísio de Azevedo) e Gabriela Cravo e Canela (personagem de Jorge Amado) são mulheres sem prole, infecundas. Todas essas personagens negras têm algo em comum: são incapazes de falar ou de se reproduzir. É a negação da matriz africana na Literatura Brasileira”, analisou. 

Conceição Evaristo mostrou também outras possibilidades narrativas, que buscam resgatar a ancestralidade africana através de Literatura. É o caso do poema “História para ninar Cassul-Buanga”, de Nei Lopes. “Diz o poema: ‘nossas carapinhas eram nuvens de algodão, brancas, como nossas negras dignidades’. Ao contrário do que se dizia sobre os ‘negros de alma branca’, o autor afirma a dignidade tão negra quanto a cor da nossa pele. Esta escrita pretende criar outro discurso, diferente do convencional”, destacou. 

Princesa Anastácia

Por fim, a escritora falou sobre a princesa bantu Anastácia, filha de Chico-Rei e Delmira, traficados para o Brasil no século XIX. Delmira teria engravidado após um estupro cometido por um homem branco. Na juventude, Anastácia desperta o desejo dos homens e a ira das mulheres. Por se recusar a manter relações sexuais com o fazendeiro que a matinha em condição de escravidão, foi presa, torturada e condenada a viver com uma máscara de ferro que lhe cobria a boca. Conta-se que possuía o dom da cura. Certa feita, o filho do homem que a mantinha em cárcere implorou para que curasse o rebento. Anastácia assim o fez, para o espanto dos brancos incrédulos. Mas faleceria pouco tempo depois, em consequência dos ferimentos causados pelas torturas que sofrera. Após sua morte, Anastácia passou a ser cultuada e declarada santa por devotos de religiões afro-brasileira. “O silêncio de Anastácia se converteu em grito. Sua imagem, com a máscara que lhe cobria a boca, foi ressignificada e hoje ganha um sentido de reexistência. Tal como Maria é a mãe da humanidade branca, Anastácia é a mãe da humanidade preta”, concluiu Conceição Evaristo.

O professor Amílcar Pereira, coordenador do evento, antes de declarar finalizada a conferência, puxou o samba da Mangueira, campeã do carnaval carioca em 2019. Tal como a Verde-e-Rosa levantou o público na Sapucaí, Conceição Evaristo emocionou a todos no pomposo Salão Pedro Calmon, falando sobre o “sangue retinto pisado, atrás do herói emoldurado”. E foi sob uma salva de palmas de pé para a laureada escritora que se encerrou o evento.

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