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"Se não fosse pela União Soviética, nós não estaríamos aqui"

Anita Leocádia Prestes e José Paulo Netto encerram o primeiro dia de debates sobre a Revolução Russa no CFCH

Na mesa da tarde do primeiro dia de seminários sobre os 100 anos da Revolução Russa, promovido pela Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (CFCH) como parte da programação da exposição "A Revolução em Imagens, Anita Leocádia Prestes, professora aposentada do IFCS-UFRJ, e José Paulo Netto, professor emérito da Escola de Serviço Social, debateram sobre “A Revolução Russa e o Brasil”, abordando diferentes aspectos dos impactos do processo revolucionário russo em nosso país.

 

A professora Anita Leocádia Prestes traçou um longo histórico do início da luta operária no Brasil, quando migrantes portugueses, espanhóis e italianos desembarcaram por aqui. A historiadora comentou que o início da tradição sindical brasileira se deu através de adeptos do anarquismo e não do socialismo. “Anarquistas e marxistas disputavam a liderança do movimento operário na Europa. No Brasil, a luta operária não encontrava espaço no âmbito parlamentar, onde predominavam os grandes oligarcas e donos de terras. A luta de classes acontecia no meio sindical e era liderada pelos anarquistas”, analisou. 

Com a fundação do Partido Comunista Brasileiro (PCB), em 1922, ocorreu uma aproximação com o movimento tenentista, onde militava Luís Carlos Prestes, pai de Anita. De acordo com a historiadora, esta aliança se deu como uma tentativa de derrotar as oligarquias dominantes à época. “No entanto, o grande erro cometido foi buscar reproduzir por aqui uma cópia das teses de Lênin, sem uma análise mais profunda da realidade brasileira e sem um conhecimento maior da teoria revolucionária russa”, explica Anita, destacando ainda a demora da chegada de livros sobre a teoria marxista ao Brasil. Segundo ela, essas foram algumas das causas históricas das derrotas do campo progressista no Brasil no século XX. 

José Paulo Netto concordou em parte com a análise sobre o que ele denominou de “atraso intelectual brasileiro”. “Nossos acadêmicos, ainda hoje, têm uma visão caricatural do Marxismo”, afirmou. “Nossa visão acadêmica sobre processos revolucionários é a da Revolução Francesa”, prosseguiu. “O rebatimento sobre os processos revolucionários na Europa foi muito débil no Brasil”, completou. 

De acordo com o professor emérito da Escola de Serviço Social (ESS) da UFRJ, a desqualificação das lutas populares é histórica no Brasil e permanece até os dias de hoje. “A Revolução Russa é extremamente atual, não apenas pelos seus objetivos, como também pelos seus equívocos”, disse. Para José Paulo Netto, a principal característica que marca este processo revolucionário é o seu caráter de “planetarização”, nas palavras do professor. “O que é novo na Revolução Russa é ela ter se tornado uma referência imediata e de impacto mundial, não apenas na massa de trabalhadores, como também na intelectualidade”, comentou. 

Os impactos em todo o mundo da Revolução Russa são, para o professor, muito maiores do que hoje o senso comum pode supor. “Se não fosse a União Soviética, talvez nós não estivéssemos aqui”, disse, em referência à Batalha de Stalingrado, entre 1942 e 1943, quando o Exército Vermelho, comandado pela União Soviética, derrotou o exército alemão, naquela que é considerada a batalha determinante para a derrota das forças nazistas na II Guerra Mundial. José Paulo Netto concluiu, ressaltando a relevância no resgate da memória revolucionária nos dias de hoje. “No Brasil, em pleno século XXI, todo movimento antipovo e antidemocrático é anticomunista. Só este fato nos dá a importância do impacto revolucionário em nosso país”, finalizou.

 

Fotos: Cícero Rabello/CPM/ECO-UFRJ.

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