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100 anos da UFRJ, a genuína universidade do Brasil

Especial CFCH - UFRJ 100 anos

Por Daniel S. Kosinski*

Ante o desafio de escrever um pequeno texto sobre os 100 anos da UFRJ, tive, a princípio, grande dificuldade. Afinal, não me senti autorizado a fazer mais que escrever um brevíssimo memorial, de cunho integralmente pessoal, a seu respeito. Assim, foi por intermédio desse relato, sem qualquer pretensão à exaustão do tema, que me senti mais à vontade para tratar da importância que atribuo ao primeiro centenário dessa instituição que, muito além de ser “nossa”, é de todo o Brasil. 

Cresci ouvindo a minha mãe − uma mulher que sempre valorizou muito a ciência e a cultura e que, desde cedo, se empenhou para me transmitir o seu gosto por elas – falando, sempre com muito orgulho, da “Universidade do Brasil”. Embora não tivesse sido, ela mesma, aluna da instituição, desde a minha infância afirmava e reafirmava a sua importância como polo científico e cultural central, insubstituível, da cidade do Rio de Janeiro, onde nascemos e vivíamos, e também do Brasil como um todo.

Demorei ainda alguns anos, já na adolescência, para entender que o final “do Brasil” havia sido, num determinado momento, trocado por um nome que me era muito mais familiar: Universidade Federal do Rio de Janeiro ou, simplesmente, UFRJ. Sonho de consumo − ou melhor, de ingresso − da maior parte dos meus amigos de ensino médio, a UFRJ era, por grande influência da minha mãe, também o meu. Naqueles tempos, pensei muitas vezes em como ela ficaria orgulhosa no dia em que eu passasse pelos portões da “Universidade do Brasil” para estudar.    

Aos 17 anos, eu queria fazer graduação em Ciências Econômicas. Porém, jovem e pretensioso, julgando que a inteligência que eu considerava ter daria conta, por si só, da missão, não levei a sério o meu primeiro vestibular, pouco estudei. Na manhã da prova decisiva − as matérias “específicas” −, meu corpo acusou a insegurança que a mente tentava esconder: acordei com uma intensa, terrível, crise de asma, felizmente a última que tive desde então. Nervoso e pagando o preço da minha própria displicência, cheguei para fazer a prova já exausto, sem fôlego, combalido, derrotado. Não passei. Assim, aparentemente, não começavam bem as minhas relações com aquela tal de UFRJ. Mas sem me admitir, ela me ensinava a sua primeira e valiosa lição.

Salvo, talvez, por um lampejo daquela suposta inteligência ou por uma boa dose de sorte, passei, no mesmo ano, no vestibular da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Lá fiquei por três anos – difíceis anos. Não gostava do ambiente, que achava pouco acolhedor e insuportavelmente quente e desconfortável no verão; não gostava do curso, demasiado “neoliberal” e individualista para as minhas inclinações políticas; fiz poucos, embora alguns bons, amigos. Em suma, simplesmente não me sentia em casa. Mas todo dia, a bordo do ônibus que me levava de Copacabana até lá, passava na porta do campus Praia Vermelha da UFRJ que, com as suas palmeiras e o seu palácio, me parecia, em contraste com a aridez cinzenta da Uerj, um oásis. Então, me perguntava − ou melhor, me cobrava − quando eu entraria lá, quando eu saldaria a dívida que considerava pendente desde o fracasso, que no meu íntimo me envergonhava, da minha primeira empreitada.

Afinal, já com 20 anos, tomei coragem para enfrentar aquela frustração e decidi fazer outro vestibular, especificamente para a UFRJ. Dessa vez, porém, para Ciências Sociais; desejava, ansiosamente, estudar política, debater política, respirar política. Para todos os fins, através de amigos e da namorada da época, já assistia com certa frequência algumas das aulas e palestras daquele espaço, como as do professor Valter, inesquecíveis. Nessa segunda tentativa, passei bem pelas provas e, em poucos meses, já me sentia totalmente à vontade no Ifcs. Lá, fiz novos amigos e grandes amigas. Quando saí de lá − finalmente, graduado − em dezembro de 2007, me senti como se estivesse saindo de casa.

Por caminhos nunca antes por mim imaginados, voltei à UFRJ alguns anos depois. Já mestre em Ciência Política pela Universidade Federal Fluminense, soube, no início de 2012, que a Universidade tinha aberto um concurso com bom número de vagas para ampliar os seus quadros técnico-administrativos. Um amigo da graduação do Ifcs, Gustavo, já seu servidor, me incentivou a fazer a prova; afinal, tratava-se, pelo menos, de uma boa oportunidade para fazer um doutorado sem depender de bolsas de estudos, cada vez mais incertas e de baixo valor. Era, também, uma forma que parecia mais rápida de iniciar uma trajetória profissional no serviço público de um país historicamente instável e de grandes dificuldades, que eu já havia experimentado, para trabalhar na iniciativa privada. Dessa vez, fui humilde como a minha primeira e malsucedida experiência com a UFRJ havia me ensinado a ser: estudei, e muito. Passei, embora não nas primeiras colocações; e no dia 17 ou 19 de setembro, não me recordo ao certo, tomei posse. Assim, reingressava na UFRJ da forma que eu menos esperava: como servidor público. Lembro-me da felicidade da minha mãe na cerimônia de posse, na verdade, muito maior que a minha.

Desde então, lotado no “oásis” da Praia Vermelha, retornei por duas vezes aos bancos escolares da UFRJ: na especialização lato sensu em Políticas Públicas, entre 2013 e 2014; e no doutorado em Economia Política Internacional, que concluí em 2019. Foram anos nos quais passei boa parte dos meus dias, da manhã à noite, migrando de sala em sala, dividido entre as tarefas de estudante e de servidor; nos quais fiz novas e raras amizades que dificilmente teriam acontecido em outro ambiente; nos quais passei um período proveitoso como pesquisador-doutorando no exterior, representando a instituição; e nos quais escrevi um livro publicado pela editora da própria Universidade. 

Com tudo isso, hoje, posso dizer que considero as minhas dívidas íntimas em relação à instituição, finalmente, saldadas. Por outro lado, duas décadas depois da sua lição inicial, sou eu que devo imensamente à UFRJ. Afinal, devo-lhe a maior parte da minha formação acadêmica; a minha trajetória profissional; boa parte dos meus laços afetivos; enfim, boa parte do que sou. Mesmo sem saber, a UFRJ me deu as lições de vida mais valiosas, como o comprometimento e a seriedade com os meus objetivos profissionais e estudantis; o reconhecimento do esforço, do empenho, do trabalho como valores sociais centrais; a convivência democrática com pessoas das mais diversas origens e extratos sociais; a apreciação das diferenças. 

Sem dúvidas, foram lições que me fazem crer que, conforme me dizia a minha mãe, a Universidade Federal do Rio de Janeiro é a genuína universidade do Brasil. Afinal, é a universidade que prega e pratica os melhores valores da nossa cultura, os valores próprios da nossa brasilidade. É a universidade que, tal como essa brasilidade e o próprio Brasil, hoje se encontra sob cerrado ataque por aqueles que, dizendo-se “patriotas”, louvam bandeiras, hinos e valores que não são os nossos. É a universidade que, tal como as demais universidades federais brasileiras, padece, já faz muito tempo, de um estrangulamento orçamentário absurdo e inteiramente incompatível com um país que se pretenda próspero, independente e soberano. Mas apesar dessas dificuldades e de outras que certamente ainda virão, é essa, também, a universidade que, através de todos nós, alunos e servidores que a integramos e que a ela devemos boa parte do que somos, haverá de resistir − com o Brasil e para o Brasil − a esses tempos difíceis que também haverão de passar.  

 

*Daniel S. Kosinski é servidor técnico-administrativo do CFCH/UFRJ e doutor em Economia Política Internacional pelo Pepi/IE/UFRJ

¹ Este artigo é parte do Especial UFRJ 100 anos, realizado pelo Setor de Comunicação da Decania do Centro de Filosofia e Ciências Humanas (Secom/CFCH) da UFRJ. Servidores docentes e técnico-administrativos, discentes e trabalhadores terceirizados refletem sobre esta Universidade no ano em que ela completa um século de existência. Os textos apresentam as visões, experiências e saberes de quem contribui para que a UFRJ mantenha a sua excelência, produza conhecimento plural, diverso e democrático, apesar de todos os desafios impostos. 

 

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